ARTES CÊNICAS

Sempre amei poesia e todas as coisas inúteis, como diria Manoel de Barros. Comecei no teatro num grupo que se chamava "Poesia na praça" e talvez por causa dessa minha iniciação continuei sempre nesse caminho, buscando a poesia no teatro, o teatro na poesia, a poesia do teatro. Vai ser um prazer compartilhar aqui algumas dessas inutilidades deliciosas .


In Dubio Pro Condenação - Núcleo de Dança-Dor
"In dubio pro condenação" é um espetáculo de dança teatro resultado de uma longa pesquisa sobre a ditadura militar no Brasil. Durante o processo de criação não faltaram referências poéticas, desde Chico Buarque até Paulo Fonteles, poeta que fala da tortura de uma forma imediata: 


AFOGAMENTO
       CORPO ESTIRADO
CABEÇA REPUXADA PARA TRÁS.

      TUBOS DE BORRACHA
INFILTRAM-LHE NA BOCA
                                      NAS NARINAS.

      ÁGUA.
O PEITO SUFOCA
O CORPO ESTERTORA
O PRESO ESPERNEIA.

       AGONIA.
QUANDO A MORTE SE APROXIMA
APENAS UM FÔLEGO.

        APENAS UM FÔLEGO
QUE O PRESO NÃO PODE MORRER ANTES DE
FALAR.












BAGAGEM 
é um espetáculo baseado na obra de Adélia Prado. Trata-se de uma colagem de diversas poesias que falam sobre as perdas sofridas pela autora mineira. Com leveza e simplicidade, a poetiza nos leva a pensar na vida,  que tem seu encanto por causa da morte, e vice e versa.
Vencedor de prêmios de melhor espetáculo, melhor atriz e melhor maquiagem no FESTIM 2011, o espetáculo tem direção do pernambucano Gessé Rosa, também indicado para melhor iluminação e direção do festival.
Segue um trecho da peça:

"A graça da morte, seu desastrado encanto, é por causa da vida. Quando se passam alguns dias e o vento balança as placas numeradas na cabeceira das covas e bate um calor amarelo sobre inscrições e lápides. E quando se olha os retratos e se consegue dizer, com límpida voz: Ele gostava deste terno branco.
E  quando se entra na fila das viúvas batendo papo e cabo de sombrinha... É que a poeira misericordiosa recobriu coisa e dor, deu o retoque final. Pode se compreender, de novo, que esteve tudo certo, o tempo topo.  E dizer, sem soberba, sem horror, que é em sexo, morte, e Deus que eu penso, invariavelmente, todo dia."


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