terça-feira, 29 de novembro de 2011

A história da alegria

 A história da alegria, de Adam Potklay, foi lançado no Brasil pela Editora Globo, em 2010. Com tradução de Eduardo Henrik Aubert.
O livro fala de como a alegria foi entendida e vivenciada em diversos momentos históricos, deixando-nos uma pergunta: com que coisas nos devemos alegrar?
O livro é repleto de poesia, já que a alegria, assim como a tristeza, é tema recorrente dos poetas.
"Diga-me: o que é uma alegria? e em que jardins crescem as alegrias?" William Blake, Visions of the daughters of albion (1793)
"Nos...(poemas de Wordsworth) eu parecia beber de uma fonte de alegria interior...que podia ser partilhada por todos os seres humanos..." J.S. Mill, Autobiography
Em WordsWorth a alegria repousa no próprio ser: na respiração, no prazer, no sangue circulando no corpo, a manutenção da vida: " eu respirei com alegria" e ainda, "E, na aurora de nosso ser, constituem,/o nexo da união entre a vida e a alegria."
Não está no livro, mas está na minha memória poética sobre o tema:
"Uns tomam éter, outros cocaína.
Eu(...) tomo alegria." Manuel Bandeira

domingo, 27 de novembro de 2011

"Falação" de poesia do meu filho de 5 anos



De Cecília Meireles: Bolhas


Olha a bolha dágua
no galho!
Olha o orvalho!
Olha a bolha de vinho
na rolha!
Olha a bolha!
Olha a bolha na mão
que trabalha!
Olha a bolha de sabão
na ponta da palha:
brilha, espelha
e se espalha
Olha a bolha!
Olha a bolha
que molha
a mão do menino:
a bolha da chuva da calha!

ANTÌFONA

sábado, 26 de novembro de 2011

Erik Satie

Erik Satie, compositor e pianista francês, deixou-nos música-poesia. Interessei-me por suas músicas e biografia porque li numa entrevista um paralelo entre sua forma de compor e a forma de Manoel de Barros escrever, e não é segredo para ninguém minha paixão por Manoel de Barros.
 Meu último trabalho, realizado com a artista ipatinguense Maria Cloenes, resultado de uma bolsa da Ação Interceptar, da Flux cia de dança, tem trilha de Erik Satie, Gnossienne n1 ( trata-se de uma trilogia : Trois Gnossienne: 1980). Também utilizamos no trabalho, como referência e influência, a poesia de Cruz e Souza: Antífona (1893) que dá nome ao trabalho. Cruz e Souza, poeta negro filho de escravos, era obcecado pela cor branca e Satie, segundo a Wikipédia, "tinha mania de comida branca:arroz, ovo, coco, peixe, nabo, queijo, entre outras." Essas coincidências tornam o processo muito mais instigante.
  Li na Wikipédia que Satie também escreveu um livro de poesias que não consigo encontrar. Enquanto minhas buscam fracassam, contento-me com um texto delicioso, em prosa, desse sarcástico e maravilhoso artista:




ELOGIO DOS CRÍTICOS
Não escolhi este tema por acaso, escolhi-o por me sentir reconhecido. Porque estou, de facto, tão reconhecido como reconhecível.
O ano passado fiz várias conferências sobre «A Inteligência e da Musicalidade nos Animais».
Hoje vou falar-vos «Da Inteligência e da Musicalidade nos Críticos». O tema é quase o mesmo mas com modificações, bem entendido.
Amigos meus disseram-me que era um tema ingrato. Ingrato, porquê? Não há nele ingratidão nenhuma; pelo menos, eu não vejo onde nos agarrarmos para dizer isso. Vou pois fazer, sereno, o elogio dos críticos.
Não conhecemos suficientemente os críticos; ignoramos o que fizeram, o que são capazes de fazer. Numa palavra, são tão desconhecidos como os animais, embora tenham, como eles, a sua utilidade. Sim.
Não são apenas os criadores da Arte Crítica, que é Mestra de Todas as Artes, mas os primeiros pensadores do mundo, os livres pensadores mundanos se assim podemos chamar-lhes.
De resto, foi um crítico quem posou para o Pensador de Rodin. Eu soube-o há quinze dias, o máximo três semanas, por um crítico. O que me deu prazer, muito prazer. Rodin tinha um fraco, um grande fraco pelos críticos… Os seus conselhos eram-lhe caros, muito caros, demasiado caros, acima de qualquer preço.
Há três espécies de críticos: os importantes; os que são menos; os que não são nada. As duas últimas espécies não existem: são todos importantes…
*
SATIE, Erik, Memória de um Amnésico , Selecção, tradução, cronologia e notas de Alberto Nunes Sampaio, ‘colecção memória do abismo’, Hiena, Lisboa, 1992.

Poesia em vídeo

 O vídeo de André Francisco e Rafaela Alves tem alguma poesia em sua composição. Poesia dos afetos, poesia cômica das vontades e disputas humanas. A trilha sonora também nos leva ao lugar da poesia: "Be happy" é o convite feito pelos jovens intérpretes que brincam em cena e nos deixam com vontade de brincar e ser feliz, como eles sugerem ser.
A utilização de recursos próprios da câmera parada podem ser observados no vídeo: Profundidade, entrada e saída de telas. As bordas não ficam muito definidas mas não acredito na obrigatoriedade de utilização de todos os recursos.
Parabéns pelo vídeo. Gostei de assistir e comentar sobre o trabalho.


Ficou com vontade de ser feliz? Assista também:


http://youtu.be/T_538ZyhuM4

sábado, 12 de novembro de 2011



O espetáculo "Figo" baseia-se na obra do poeta português Antônio Nobre, mas a música abaixo, que é pura poesia, também influenciou muito as reflexões acerca da melancolia causada, sobretudo, pelo sentimento de perda.


Pedaço de Mim

Oh, pedaço de mim
Oh, metade afastada de mim
Leva o teu olhar
Que a saudade é o pior tormento
É pior do que o esquecimento
É pior do que se entrevar
Oh, pedaço de mim
Oh, metade exilada de mim
Leva os teus sinais
Que a saudade dói como um barco
Que aos poucos descreve um arco
E evita atracar no cais
Oh, pedaço de mim
Oh, metade arrancada de mim
Leva o vulto teu
Que a saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu
Oh, pedaço de mim
Oh, metade amputada de mim
Leva o que há de ti
Que a saudade dói latejada
É assim como uma fisgada
No membro que já perdi
Oh, pedaço de mim
Oh, metade adorada de mim
Leva os olhos meus
Que a saudade é o pior castigo
E eu não quero levar comigo
A mortalha do amor
Adeus
Composição: Chico Buarque 

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Retrato

"Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
Em que espelho ficou perdida a minha face?"

Cecília Meireles


"Carpe Diem" quer dizer "colha o dia". Colha o dia como se fosse um fruto maduro que amanhã estará podre. A vida não pode ser economizada para amanhã. Acontece sempre no presente. Rubem Alves