Meu último trabalho, realizado com a artista ipatinguense Maria Cloenes, resultado de uma bolsa da Ação Interceptar, da Flux cia de dança, tem trilha de Erik Satie, Gnossienne n1 ( trata-se de uma trilogia : Trois Gnossienne: 1980). Também utilizamos no trabalho, como referência e influência, a poesia de Cruz e Souza: Antífona (1893) que dá nome ao trabalho. Cruz e Souza, poeta negro filho de escravos, era obcecado pela cor branca e Satie, segundo a Wikipédia, "tinha mania de comida branca:arroz, ovo, coco, peixe, nabo, queijo, entre outras." Essas coincidências tornam o processo muito mais instigante.
Li na Wikipédia que Satie também escreveu um livro de poesias que não consigo encontrar. Enquanto minhas buscam fracassam, contento-me com um texto delicioso, em prosa, desse sarcástico e maravilhoso artista:
ELOGIO DOS CRÍTICOS
Não escolhi este tema por acaso, escolhi-o por me sentir reconhecido. Porque estou, de facto, tão reconhecido como reconhecível.
O ano passado fiz várias conferências sobre «A Inteligência e da Musicalidade nos Animais».
Hoje vou falar-vos «Da Inteligência e da Musicalidade nos Críticos». O tema é quase o mesmo mas com modificações, bem entendido.
Amigos meus disseram-me que era um tema ingrato. Ingrato, porquê? Não há nele ingratidão nenhuma; pelo menos, eu não vejo onde nos agarrarmos para dizer isso. Vou pois fazer, sereno, o elogio dos críticos.
Não conhecemos suficientemente os críticos; ignoramos o que fizeram, o que são capazes de fazer. Numa palavra, são tão desconhecidos como os animais, embora tenham, como eles, a sua utilidade. Sim.
Não são apenas os criadores da Arte Crítica, que é Mestra de Todas as Artes, mas os primeiros pensadores do mundo, os livres pensadores mundanos se assim podemos chamar-lhes.
De resto, foi um crítico quem posou para o Pensador de Rodin. Eu soube-o há quinze dias, o máximo três semanas, por um crítico. O que me deu prazer, muito prazer. Rodin tinha um fraco, um grande fraco pelos críticos… Os seus conselhos eram-lhe caros, muito caros, demasiado caros, acima de qualquer preço.
Há três espécies de críticos: os importantes; os que são menos; os que não são nada. As duas últimas espécies não existem: são todos importantes…
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SATIE, Erik, Memória de um Amnésico , Selecção, tradução, cronologia e notas de Alberto Nunes Sampaio, ‘colecção memória do abismo’, Hiena, Lisboa, 1992.
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